Publicado orignalmente no site: Wiplash
Foi um dia em tanto, um grande show! Vou fazer um review resumido da coisa pois dificilmente se transmitiria em palavras um show.
Cheguei morto do trabalho querendo ficar gripado, tomei um remédio e fui deitar. Coloquei o relógio pra 21:10, quando ele toca eu tava começando a tirar um cochilo revigorante, enrolei até 21:25 na cama e saltei dela num pulo. Coloquei minha armadura em forma de camiseta do Led Zeppelin e minha bermuda - claro que eu iria de bermuda, jamais usaria calcinha preta pra ser mais um “metaleiro” que tanto repúdio. Peguei o Batmóvel e comi um sanduba que adquiri naquela Roubonete que começa com M, dirigi como um louco comendo e acelerando fundo.
Cheguei no estádio Nilson Nelson as 22:10 (show marcado para as 22:00) e como suspeitava nem estava tão cheio. Estava cheio, mas não na capacidade máxima. Tenho a cruel impressão de ter visto lá mais lotado no show Raimundos & Titãs de 1995. Pra variar inventei de tomar uma vodka antes de entrar no recinto, na metade do copo percebo a merda que fizera pois estava querendo gripar. Pensei agora já era... Enquanto me infiltrava observando posers e macacos de preto. Virei a bagaça duma vez pois esperava beber mais lá dentro (já tava lascado mesmo com a gripe). Entrei na budega e acho que por nervosismo me bateu uma sede sinistrinha, me dirigi ao bar para ser assaltado novamente e tomar uma Cerva Sol por 4 reais. Na área VIP chamada HOT ZONE todas as figurinhas carimbadas do “Rock Brasília” de caras de bandas a donos de casas de show. Tratei de mirar o palco e marchar.
Quando ia me aproximando do palco as luzes se apagaram e começa a tocar a instrumental E5150. Achei perfeita como introdução essa música instrumental, mas preocupado pensei: danou-se tudo! Não vou chegar lá na frente a tempo. Apes e Faggs vestidos de preto de toda as espécies fecham o portal para pertinho do palco com a música E5150 rolando.
Com Vodka no cabeção e uma Sol na mão montei meu plano: a cada intervalo de música eu saltaria posições para frente. No meio de E5150 e eu vi o Vinnie Appice subindo na bateria. Termina a música e entram os restantes cavaleiros do apocalipse, Dio, Iommi e Butler. Começa a porrada com a música The Mob Rules.
Dio visivelmente cansado lidera o ataque, a galera vai ao delírio. Impressionou-me como Dio é magrinho, muito, muito esquálido. Iommi é outro que parece um “gái de pau” de tão magro, mas com um buchinho por cima da sua SG, Butler não entendi foi nada... Butler tinha cabelo ruim nos anos 70 e me aparece de cabelo liso, fiquei noiado. Butler e Iommi com casacos pesados que eu pensei: esses ingleses não sentem calor não?
Passada a veadagem deste que vos fala em notar detalhes como magrezas e buchinhos comecei a me concentrar no show, afinal não é minha intenção ser o novo Clóvis Bornay.
Dio é a simpatia em pessoa, conversando sempre nos intervalos das músicas, e a cada música ficando cada vez menos cansado. Ele começou o show nitidamente muito cansado e foi ficando mais forte conforme as músicas. Dio é quase teatral, ele interpreta as músicas como se fossem peças de teatro. Iommi quase não se mexe no palco e vc só percebe que ele está feliz quando ele anda de vez em quando de um lado para o outro ou mexe a cabeça. È engraçado porque diversas vezes ele esboça coisas que se assemelham à micro-sorrisos, sem sorrir mesmo. Geezer parece um mamute destruindo o baixo, toca muito pesado e com uma pegada ao vivo muito mais forte que no disco The Devil You Know. Butler fica parado que nem estátua, mas vc vê que ele toca com muita força atacando o baixo. Ele é outro que não demonstra emoções no máximo jogando beijinhos no final. Engatam Time Machine e a cada intervalo de música Dio fala com a plateia e anuncia a próxima música. O povo começa a gritar DIO, DIO ensadecidamente no meio das músicas. Vinnie Appice eu nunca havia prestado atenção, achava irrelevante até ver ele ao vivo.
Appice é um véião muito do TORA, com ¼ de show ele engata um solo de bateria que deve ter levado bons 10 minutos. Destruidor o solo, ele vai ficando cansado no meio do solo, mas isso só me fez ficar mais entusiasmado, pois ele perdeu um pouco do tempo, o que deu um caráter bem humano a ele (lembre-se perder o tempo pra um baterista é um grande crime), mas continuava a esmurrar a bateria no longo solo. Durante o solo os camaradas sumiram, devem ter ido beber um vinho depois entram macetando outro hit. Lá pelas tantas Iommi fica sozinho no palco e manda uma Jam session sozinho que introduz Country Girl, os demais ressurgem no palco tocando Country Girl que no meio, sem terminar, se torna Heaven and Hell. Heaven and Hell vira no meio uma imensa Jam session de blues que dura sem brincadeira quase meia hora, no final Iommi possuído pelo espírito de Chuck Berry termina a música Heaven and hell que teve uma meia hora em ritmo de rockabilly alucinado.
A banda é muito mais suingada, blueseira e de Jam sessions que todos os discos (mesmo os da fase Osbourne/Ward) conseguem transparecer. Os mais novos devem ter se entediado, eu estava em estase com a blueseira comendo. Tem coisas que as pessoas batiam cabeça tipo Bible Black e Follow the Tears, tinha coisas que as pessoas ameaçavam dançar e não o faziam por autocensura de soarem playboys – quanta burrice. Tinham músicas que eram pra dançar mesmo e nego ficava com passinhos tímidos ao invés de se soltar... Ah saudades dos anos 60. Já outras todos ficavam parados só observando. Acho que nunca fui num show de rock tão tranqüilo na vida, tirando um demente que passou atropelando todo mundo, foi tudo tranquilíssimo, tinha crianças de 10 anos, e muita gente de mais de 40, muitas mulheres de todas as idades e tudo era muito tranquilo. Follow the Tears foi massacrantemente pesada ao vivo, já disse antes e repito, se vc tirar o teclado é metal alternativo puro essa música. O teclado é que faz as nuances tradicionais. Novamente o povo enlouquecido gritava: DIO! DIO! DIO!!!
Dio falou pelos cotovelos e meu analfabetismo me permitiu entender pouca coisa do que ele falava. Incrivelmente eu entendi muita coisa. Mas não escondi o sorriso quando mesmo sabendo ser uma grande lorota ele disse em alto e bom som com inglês de dicção perfeita: “Heaven and Hell em Brasília; pela primeira vez, mas não pela última”.
Ele arriscou um “muito obrigado” em português e não saiu como aqueles muito obrigados de gringos, saiu-se até bem no português. Dio perdeu muito dos graves e agudos, mas ainda coloca muito garoto de 20 no bolso.
O Show foi bem curto, 1 hora e meia no máximo, mas ver Dio com 67 anos que subiu exausto criando forças a cada música foi algo inigualável. Foi um show intimista e bem diferente do último show internacional que eu fui (Helmet em Goiânia). O Show do Sabbath/Heaven and hell é muito mais contemplativo que meramente bateção de cabeça. Geezer e Tony são de poucas emoções, no final Geezer mandou beijinhos, já Appice e Dio são corações pulsantes. Quando vc pensa na idade dos caras e no tanto de drogas que eles já devem ter consumido, sem nunca terem feito atividade física nenhuma, dá pra entender sem se irritar o porquê do show ser tão curtinho. Afinal são poucos véões de 60 anos que ficam como o Stallone.
No final do show alguém soltou uma bufa que quase me causou calvície instantânea. Senti os fios de cabelo afrouxando com o peido maldito que soltaram. O cheiro era tão forte que fiquei momentaneamente nocauteado. Senti o aço do heavy metal sendo derretido como chumbinho. Tirando isso foi muito fera o show!
Se me pedirem uma dica, eu diria ao pessoal do RJ e SP: colem no palco. Iommi e Butler jogam toneladas de palhetas, mas jogam sem fazer força, ou seja, se vc colar no palco vc pega uma. As palhetas voaram a centímetros das minhas mãos. Não peguei nenhuma, mas por centímetros eu poderia ter conseguido. Um show memorável faltaram bilhares de HITS, mas ver a força física de Dio crescendo é algo que me marcou muito.
Longa vida ao H&H!!! E que voltem a Bras-Ilha Town!
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